quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Programas Sociais - CCT

Recentemente, participei de uma pesquisa que procurou mapear os programas CCT (Conditional Cash Transfers) em 6 países da América Latina: Brasil, México, Colômbia, Peru, Jamaica e Honduras. Os programas de transferência condicional de renda são aqueles que pagam um beneficio monetário às famílias em troca de que elas invistam em capital humano, notadamente saúde e educação. Assim, ele alivia a pobreza de curto prazo ao mesmo tempo em que cria condições para que aquela família saia da pobreza no médio/longo prazo. A diminuição da pobreza e as externalidades geradas (às vezes para a família o mais vantajoso é ter a criança trabalhando) justificam a implementação do programa. As condicionalidades, além de seus benefícios próprios, são também outra forma de legitimá-lo à sociedade, porque estabelecem uma obrigação aos beneficiários (ou seja, o recurso não vem "de graça").

Este modelo de política social teve suas origens em municípios brasileiros e também no México nos anos 90 e acabou se difundindo por quase toda a América Latina no fim dos anos 90 e inicio dos anos 2000. Em muitos países, a implantação do programa ajudou a estruturar a política social, unificando e racionalizando programas antigos. Hoje em dia, os maiores programas são o Bolsa Família do Brasil (14 milhões de famílias beneficiadas) e o Oportunidades do México (6 milhões de famílias). Um ponto importante é que apesar dos programas CCT terem a mesma lógica, são várias as diferenças de país para país. Características gerais como população-alvo, proporção da população atendida (cobertura), valor real da transferência, forma de pagamento, condicionalidades, resultados e avaliação variam bastante entre eles.

Como pode ser percebido, a implementação de um programa deste tipo é bem trabalhosa. Durante o desenho de um CCT, são muitas as questões que devem ser levadas em conta pelos policymakers. As mais fundamentais são as listadas abaixo:

1. Funding (mais crítico em países mais pobres, porque além das restrições financeiras, o percentual de famílias elegíveis é maior)
2. Definição da população elegível
3. Definição de método de targeting e aprimorá-lo constantemente, evitando erros de inclusão ou exclusão
4. Definição de desenho institucional e relação entre os órgãos responsáveis e diferentes esferas governamentais
5. Definição de forma de pagamento, periodicidade, a quem (geralmente são para as mães) e métodos de evitar a manipulação política do programa
6. Monitoramento das condicionalidades e definir qual a abordagem adotada em caso de não cumprimento (punição ou ajuda)
7. Garantir a oferta de serviços na região (não adianta exigir frequência escolar se não há escola na localidade)
8. Implementação de ouvidoria, atendimento (ajuda) e publicidade
9. Definir formas de auditoria
10. Definir formas de monitoramento e avaliação

Cada um desses tópicos merece longas considerações, mas acredito que não há espaço suficiente. Um destaque importante é que a percepção positiva dos programas é ligada a não existência de erros de targeting, ao conhecimento do funcionamento do programa e ao reconhecimento da importância e dos efeitos positivos. Erros de inclusão, por exemplo, tem um impacto de imagem pior do que erros de exclusão.

Os economistas tem muito a dizer sobre várias etapas destacadas acima, com destaque para os métodos de targeting e para os métodos de avaliação. Os métodos de targeting são formulados e avaliados por meio de pesquisas empíricas. Um métodos mais utilizados é o Proxy Means Test, que nada mais é do que um modelo econométrico que procura captar a elegibilidade das famílias por meio de uma séries de variáveis (desde educação do pai até o número de televisores na casa).

Em relação à avaliação, acredito que seja o prato cheio para os economistas. Organismos multilaterais, universidades e think-thanks buscam avaliar impactos relacionados aos programas CCT. Um ponto de destaque é que algumas vezes a avaliação futura já é incorporada no desenho do programa, como no caso clássico do mexicano Oportunidades. Desde o seu início em 1997 (quando ainda tinha o nome de Progresa), o programa possibilita a realização de diversas avaliações experimentais, que acabam direcionando futuramente as revisões do programa.

E sobre o resultado das avaliações? De maneira geral, pode-se afirmar que elas tem mostrado resultados importantes em relação à diminuição da pobreza e em alguns casos em indicadores relacionados às condicionalidades, como saúde e frequência escolar. Quando são analisados outcomes mais amplos, como qualidade da educação recebida, os resultados já se tornam bem menos positivos. Isso mostra, portanto, que existem muitos desafios pela frente, sendo que os principais tem a ver com a qualidade dos serviços ofertados, evolução das condicionalidades para novos cenários e outros relacionados ao monitoramento e avaliação. É nesse sentido que os programas devem procurar avançar, não só por si só, mas com a ajuda do ambiente externo a eles.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Panorama Fiscal - Dados de Estoque

Outro dia, um colega estava com dúvidas em relação aos dados fiscais de estoque para o Brasil e logo percebi que era mais um fazendo confusão com os diversos conceitos de dívida presentes na economia brasileira. Por conta disso, resolvi aproveitar parte da explicação, que pode ser útil para alguém, e colocar aqui, sem deixar de fazer algumas considerações sobre a evolução do endividamento do país. Neste post falaremos, portanto, da posição fiscal em termos de estoque. Em um segundo post, poderemos falar mais de dados fiscais de fluxo, tais como o superávit primário.

A principal dúvida do colega era em relação às diferenças entre dívida líquida do setor público (DLSP), dívida mobiliária federal e dívida bruta. Para ele, também não estava claro se esses conceitos estariam abrangendo rubricas como operações compromissadas.

Para que fique claro, portanto, temos que o principal conceito de dívida do país é a DLSP, que atingiu, em maio de 2013, o valor de R$ 1.584 bilhões, ou 34,8% do PIB. A DLSP é um conceito líquido, que subtrai ativos financeiros das obrigações do setor público. Os principais ativos são as reservas internacionais (R$ 789 Bi) e os créditos ao BNDES (R$ 379 Bi) , enquanto os principais passivos são a dívida mobiliária em mercado (R$ 1.829 Bi), as operações compromissadas (R$ 714 Bi). Outros passivos de destaque são os compulsórios e a base monetária. Ainda existem alguns que se anulam, pois são ativos de um ente e passivo de outro, sendo o melhor exemplo as dívidas estaduais com a União.

Já em relação à dívida bruta, existem dois números calculados pelo Banco Central, ambos em relação ao governo geral (e não setor público. A diferença básica é que o governo geral exclui o BC, mas para cálculo da dívida bruta ele considera as operações compromissadas do BC, então na prática é quase a mesma coisa). Os dois conceitos diferem entre si pois o menos usado inclui como dívida os títulos do Tesouro emitidos para fins de política monetária e que estão parados na carteira do BC. De acordo com um, a DBGG alcançou 59,6% do PIB em maio/13; pelo outro, a DBGG seria de 64,2%.

Sobre a composição da dívida mobiliária, maior ativo da DLSP, os resultados dos últimos anos são bastante satisfatórios. A participação de títulos prefixados e indexados aos preços cresceu bastante, enquanto caiu a participação das LFTs e títulos indexados ao câmbio. O prazo médio do estoque da dívida também aumentou, fazendo com que a gestão da dívida mobiliária estivesse de acordo com a prescrição dos especialistas.

Mesmo com a queda consistente da DLSP/PIB desde 2002, passando de 63% para 35%, com a melhora da composição e prazo da dívida mobiliária e com a queda da taxa de juros no país, tornou-se lugar comum criticar a gestão fiscal no país. Acho que por isso é normal que se faça alguma confusão mesmo. E de fato existem algumas razões para isso:

1. A dívida bruta continua oscilando em torno dos 60%, sem acompanhar a tendência de queda da DLSP: isso se deve basicamente (i) a acumulação de reservas, que quadruplicou de tamanho desde 2006 e (ii) aportes ao BNDES, que passou de R$ 7 bilhões em 2007 para quase R$ 400 bilhões.

2. A política de crescimento dos ativos do setor público tem como resultado mais geral um aumento da taxa implícita da DLSP, que caiu até 2009 e desde então subiu quase um ponto percentual, mesmo com a queda acentuada da taxa Selic. Isso ocorre porque os principais ativos do setor público, reservas e créditos ao BNDES, tem uma remuneração muito menor do que aquela paga nas operações de captação (não vamos nem entrar no mérito de avaliar essa política exagerada de capitalização do BNDES; deixemos isso para frente!)

3. Grande parte da aquisição desses ativos vem sendo "financiadas" não por dívida mobiliária, mas sim por operações compromissadas, que passaram de R$ 187 bi em 2007 para R$ 714 bi. As operações compromissadas são indexadas à Selic e são de curto e curtíssimo prazo. O aumento dessa dívida acaba contaminando aqueles ganhos de composição (indexadores e prazos) obtidos na dívida mobiliária, aumentando a participação da DLSP indexada à Selic (com todos os problemas derivados dessa indexação).

Além dos dados de estoque, a piora do quadro fiscal vem muito em decorrência da deterioração dos dados fiscais referentes a fluxos. Pior que isso é que eles vem caindo mesmo com a contabilidade criativa originada pelo Arno e sua turma. Em um próximo post, esses dados serão analisados aqui.

PS: É uma pena que não tenhamos gráficos aqui no Blogger. Mas se alguém se interessar, posso mandar um relatório fiscal em que coloco vários gráficos, tabelas e números mais precisos.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Ciclicidade da política fiscal e o resultado estrutural

Aproveitando o momento em que o BC passa a utilizar o conceito de resultado fiscal estrutural em suas projeções, é importante falar um pouco sobre esse conceito.

O debate sobre a ciclicidade da política fiscal tem raízes na premissa de que uma tarefa importante que deve ser delegada à essa política é a estabilização das flutuações do produto. Desta maneira, o governo deveria buscar uma política fiscal keynesiana: expansionista durante os períodos recessivos e restritiva ao longo de períodos expansivos.

As evidências existentes, no entanto, sugerem que políticas fiscais operam de maneira distintas entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento. Para os primeiros, os estudos normalmente sugerem a existência de política fiscal anticíclica e, para os últimos, os resultados sugerem políticas fiscais frequentemente pró-cíclicas. Das razões apontadas, se destacariam a oferta de crédito e outras questões relacionadas à Economia Política (sistemas majoritários, dispersão política, ciclos eleitorais).

Para o Brasil, podem ser destacados alguns estudos que verificam o grau de ciclicidade da política fiscal, como Rocha (2009) [papel dos estabilizadores automáticos relativamente pequeno; ausência de tentativa deliberada e sistemática de estabilizar a economia através do ciclo por meio de políticas discricionárias; política fiscal menos pró-cíclica após LRF] e Rocha e Giuberti (2006) [política fiscal dos governos estaduais era predominantemente pró-cíclica e assimétrica antes da LRF, mas perde sua ligação com o ciclo econômico depois que a lei entra em vigor]. Além desses, mais recentemente, medidas de superávit estrutural vem sendo estimadas para a economia brasileira [Mello e Moccero (2006), Schettini et al (2011) e Oreng (2011)], a maioria encontrando um grau de prociclicidade da política fiscal brasileira dos últimos anos.

Neste contexto, surgiu um movimento pela “segunda geração de regras fiscais” (Monitor Fiscal do FMI), onde haveria a mudança partindo das metas fiscais em direção a metas fiscais estruturais. Essas metas partiriam da seguinte premissa: o resultado fiscal do governo pode ser dividido em dois componentes: resultado estrutural e resultado cíclico. O resultado cíclico se refere à parcela dependente do ciclo econômico, como aumento (diminuição) de receitas (tributárias, relacionadas a preços de commodities, etc.) e atuação dos demais estabilizadores automáticos do lado das despesas (auxílio desemprego, etc.). O resultado estrutural seria aquele ligado à discricionariedade do policymaker, não sujeito às oscilações do ciclo.

O fato é que na prática, contudo, pode haver dificuldades de implementação de tais metas, basicamente pelo fato dos componentes do resultado fiscal serem de difícil mensuração. Um exemplo claro é o nível de produto potencial. Além disso, a determinação do ciclo é de certa maneira um fenômeno simultâneo à execução fiscal, de modo que ao longo do exercício fiscal o policymaker poderia não saber qual a meta a perseguir. 

Apesar da existência destes problemas, entretanto, a adoção de metas fiscais estruturais deve ser um objetivo a ser perseguido pela autoridade fiscal. Essas metas já são uma realidade na União Européia e também em países vizinhos, como o Chile e a Colômbia. Além dos efeitos anticíclicos, uma outra grande vantagem seria diminuir o desespero do governo para cumprir as suas metas, visto, por exemplo, no que se passou a chamar de contabilidade criativa. Na visão de alguns economistas, entretanto, a adoção dessas metas no Brasil ainda deve demorar.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Leituras indispensáveis

Uma das melhores coisas do jornal Valor é sem dúvida o seu caderno Eu & Fim de Semana, que sempre traz matérias imperdíveis. Infelizmente, não terei tempo de comentá-las, mas é importante deixar registrado algumas das últimas:




Além destas, acho bastante recomendável a leitura da matéria da Piauí de maio sobre a demografia brasileira, tendo como personagem principal o professor do Cedeplar José Alberto Magno de Carvalho. Bem ao estilo da Piauí, trata-se de um ensaio grande, que, além de contar um pouco da história do ensino da demografia no país, coloca algumas questões importantes da transformação da nossa sociedade, das quais poderiam ser destacadas:

1. Bônus demográfico, que se abriu no país na década de 70, encerrará em uns 10 a 15 anos e foi muito pouco aproveitado;

2. Para a redução da desigualdade verificada nos últimos anos, o papel da renda do trabalho foi bem maior do que o das transferências;

3. Um dos fatores para explicar a queda de desemprego recente é a própria desaceleração da PEA;

4. Pelas contas do Ilan Goldfajn, o crescimento necessário para manter o desemprego baixo hoje em dia no Brasil está por volta de 1%. Isso explicaria, portanto, um possível paradoxo entre o baixo crescimento e baixo desemprego (que desafiaria a Lei de Okun).

Vale notar, que na última semana, o Valor também trouxe uma matéria sobre a demografia brasileira e o pequeno aproveitamento do bônus demográfico. O título, nada animador: Uma janela já meio fechada.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Mais sobre austeridade - Krugman

Na semana passada, o Valor publicou um ensaio do Krugman, com o título sugestivo de "Como a defesa da austeridade se desfez".

No texto, o economista defende que as economias centrais fizeram muito pouco para enfrentar a crise. Se em 2008 e 2009 principalmente os EUA estimularam a economia via políticas monetária e fiscal, no início de 2010 as economias mais avançadas passaram do estímulo para a austeridade. O ponto dele é que essa reversão não estaria prevista nos manuais e foi basicamente apoiada (i) pelo trabalho de Reinhart e Rogoff e (ii) pelos trabalhos dos Bocconi Boys, encabeçados por Alesina e Ardagna. Além disso, no plano real, ela teria sido apoiada pela situação grega, com déficits e dívida bem altos, que ajudou a gerar um certo repúdio às noções de gasto público.

Krugman compara os gastos públicos das economias avançadas nesta crise com aqueles realizados em outros períodos de recessão, justificando que os estímulos desta vez foram menores e interrompidos brevemente. Isso fez com que o resultado das políticas fossem "desastrosos", principalmente na Grécia, onde até o FMI já reconheceu o erro. A partir daí, atacou a teoria difundida por Alesina e Ardagna, de austeridade expansionista, e o trabalho de R-R, cujos erros a gente já conhece.

No final, a sua tese: a de que a economia da austeridade exerceu poder muito grande sobre a opinião da elite logo de início, tanto por causa de fatores morais, como por causa de interesse próprio. As políticas adotadas não tem sido tão ruins para os ricos. Seria cedo para dizer se o domínio da economia da austeridade vai diminuir, diante do fracasso das teorias. Mas a mensagem mais geral estava dada: poucos benefícios podem resultar do saber.

***

Agora, a minha opinião. O Krugman, embora correto, está muito radical. Acho que a maioria dos economistas acredita que, ao menos nos EUA, a atuação dos policymakers foi boa e impediu a ocorrência de uma nova depressão. É claro que sempre poderia ter feito mais, mas a que custo? O gráfico que ele coloca de gastos em épocas de crise não fala nada em relação às receitas, que despencam nesse período. Tanto é que os indicadores d/y subiram bastante. Já coloquei aqui o que acho sobre isso durante a polemica R-R. Não acho que exista um número mágico, muito menos que seja 90%, mas claramente uma dívida alta pode gerar um problema grande, se cair num equilíbrio múltiplo ruim. Para um país que emite a moeda de sua dívida e principalmente para um país como os EUA, que tem credibilidade praticamente ilimitada, esse equilíbrio ruim demora mais a chegar. Em todo caso, não é bom facilitar, nem onerar demais às gerações futuras e nem atar as mãos para uma crise posterior (imagina uma crise grande pegando as economias com  d/y = 200; qual o espaço fiscal elas terão?)

Talvez para a Europa ele tenha mais razão. Os bocconi boys entraram pelo cano com essa idéia de consolidação fiscal expansionista. No máximo, o conceito poderia funcionar em tempos normais, em uma conjunção com outros fatores positivos, mas nunca durante uma crise desta proporção. Mas vale lembrar que na Europa tem o problema de uma união monetária para países bem diferentes. Não é um estado federativo. Ou seja, isso também justifica a demora e a tímida atuação. Não dá pra culpar somente os papers da austeridade expansionista. De qualquer jeito, a austeridade foi implementada e tomara que revejam isso. Até o FMI já fez a mea-culpa dele.

Só acho importante destacar que dívida alta é sim um problema grande. Menor do que o alardeado, menor do que uma grande depressão. Isso não permite, contudo, que um país saia emitindo dívida infinita, mesmo que seja em sua própria moeda. 



quarta-feira, 12 de junho de 2013

Dados econômicos

Alguns debates recentes chamam a atenção dos economistas para o cuidado que devem ter ao trabalhar com dados econômicos. Dou alguns exemplos:

PIB

Um primeiro ponto que vem sendo discutido é sobre os dados de crescimento disponibilizados pelo IBGE. O problema poderia estar na mensuração dos serviços, que representam cerca de 60% do PIB brasileiro, especialmente nos sub-itens intermediação financeira e atividades imobiliária e de aluguel. De fato, o IBGE anda revisando a sua metodologia e, portanto, não divulgou ainda o PIB definitivo para os anos de 2010 em diante. Um relatório do Bráulio Borges, da LCA, faz alguns exercícios empíricos, como relacionar o consumo de energia elétrica ao crescimento do PIB, e sugere que de fato o crescimento do PIB do biênio 2011/2012, em especial, podem ter sido subestimado. Outro economista que vem defendendo essa posição abertamente é o Chico Lopes, como nesse artigo.

EMPREGO

No mesmo relatório, Borges compara alguns dados de desemprego, especialmente o da PME, o da PED e o da PNAD, este último, anual. O mais difundido, da PME, é baseado em 6 regiões metropolitanas, englobando 30% da população ocupada. Um exemplo de seus problemas é a composição do emprego, que diverge das outras pesquisas e talvez seja menos representativo da população total. No final das contas, o que ele sugere é que talvez o desemprego não esteja tão baixo como o reportado pela PME (5,5% em 2012).

INVESTIMENTO

Francisco Faria, também da LCA, chamou atenção para a análise do dado de investimento/PIB dos países, que, sem focar em seus componentes, pode levar a conclusões equivocadas. Muitas vezes comparamos a taxa entre os países, mas muitas vezes não sabemos o que está dentro do agregado. A pergunta que se coloca, portanto, é quais componentes devem ser destacados?

Primeiramente, é importante separar o investimento em dois grandes grupos: construção e não-construção. Para o Brasil, por exemplo, a série histórica de investimento possui valores inferiores a média de uma amostra dos países (54 com 85% do PIB). Mas se considerarmos o dado não-construção, o investimento fica ligeiramente acima da média. 

Em seguida, dentro do grupo construção, é necessário explicitar os componentes, especialmente de investimentos residenciais, construção de infra-estrutura e instalações produtivas. Investimentos residenciais, embora tenham um grande mérito, pouco contribuem para aumentar a capacidade produtiva da economia no futuro. Parte considerável da taxa de investimento chinesa vem desse componente. Além disso, como chama atenção o artigo citado, bolhas imobiliárias podem distorcer o indicador, como, por exemplo, ocorreu na Espanha antes da crise.

No grupo ex-construção, é importante identificar o valor dos estoques, máquinas e equipamentos, veículos, etc. Estoques são investimento só nas contas nacionais, pois não aumentam a capacidade produtiva da economia. Uma taxa de investimento baseada em caminhões, por exemplo, pode não ser tão saudável como uma outra baseada em máquinas industriais. Outro destaque que deve ser feito é em relação aos bens intangíveis. No Brasil, alguns tipos desses bens, como softwares, não são contabilizados no dado de FBCF. Essa é inclusive uma característica que está sendo incorporada na metodologia do IBGE, então devemos ter algumas novidades neste dado nos próximos meses.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Dívida alta implica em baixo crescimento?

De um ponto de vista teórico, é plausível supor que baixo crescimento leva a maior dívida no futuro, principalmente pela diminuição de receitas e contas públicas mais apertadas. Porém, o contrário seria verdade? Alta dívida causaria também um baixo crescimento no futuro?

Mais uma vez, de um ponto de vista teórico, tal causalidade poderia ocorrer, pelos seguintes canais: 
(i) maior taxa de juros requerida para seu financiamento (menor espaço fiscal); 
(ii) problemas de financiamento de curto prazo, especialmente da dívida em moeda estrangeira (ou de união monetária, como a EU); 
(iii) piores expectativas quanto à situação econômica futura; 
(iv) menor espaço para estimular a economia via instrumentos fiscais, com o risco de reforçar (i), (ii) e (iii), mas podendo aliviá-las também.

O problema é que esse canais podem funcionar, mas podem também não funcionar. Acho que (i) pode acontecer ou não, é a velha história dos múltiplos equilíbrios do Blanchard. Os EUA são um caso típico, pois aumentam a dívida e muitas vezes conseguem rolar ainda mais barato. Para países emergentes, no entanto, é mais provável. Em (ii) é mais ou menos a mesma coisa, mas a estrutura da dívida dos caras pode ajudar (se for longa por exemplo). As expectativas vão importar muito, então se você aumentar sua dívida no CP pra estimular a economia e os agentes perceberem que o produto vai aumentar na frente, pode ser que eles não demandem uma taxa alta. Tá linkado no (iv). Talvez seja possível aumentar o gasto no curto, mas estabelecer um plano crível de redução de gastos no médio, do jeito que vem sendo recomendado. O mercado pode comprar. Ou seja, no final das contas vai depender da sustentabilidade da dívida, que será "avaliada" pelos agentes do mercado de dívida.

Feita esta pequena introdução, passamos ao que interessa. Reinhart e Rogoff (2010) estabeleceram um nível de dívida para além do qual haveria grande prejuízo ao crescimento, em torno de 90%, e uma grande polêmica foi instaurada quando alunos de doutorado de Armhest descobriram erros nas planilhas usadas pelos primeiros. RR reconheceram esses erros, mas mantiveram a crença na conclusão básica da pesquisa.

A polêmica teve grande repercussão, em várias frentes. Sem entrar no mérito do "papelão" dos autores e de como a AER ficou feia na foto, um ponto relevante é que vários governos adotaram as conclusões da pesquisa de RR para justificar a austeridade de suas políticas econômicas. Grupos políticos se apropriaram da conclusão e defenderam uma causalidade estrita de alta dívida para baixo crescimento, mesmo quando a própria pesquisa original destacava os problemas de endogeneidade presentes no exercício. Por isso a polêmica foi tão grande.

Há poucos dias, um estudo veio para contribuir com o debate. Kimballe e Wang fizeram uma análise mais focada no longo prazo, verificando os efeitos de uma variável na outra após 5 ou 10 anos.

Partindo do baixo crescimento para a dívida, existiu de fato como esperado uma relação negativa dentro da amostra. A relação contrária, entretanto, é bem menos evidente. Em seguida, eles verificam o efeito da parte de dívida não explicada pelo baixo crescimento prévio no crescimento futuro e não encontram evidências de que esse excesso de dívida reduz o crescimento futuro. Chegam encontrar inclusive uma relação levemente positiva (na prática, eles controlam por efeitos de crescimento anterior baixo no nível de dívida).

Porém, um resultado interessante da análise é que, ao fazer uma comparação entre países, aí sim encontra-se uma relação negativa entre excesso de dívida e crescimento futuro. Uma interpretação possível é que essa relação aparece devido às dificuldades de curto prazo no mercado de dívida. Ou seja, se um país tem D/Y de 100% e os outros tem uma média de 60%, a situação não vai ficar boa para ele. Acho que é bem plausível e reforça o canal (ii) aí de cima.

Por último, eles comparam as tendências de maneira agregada (média), mostrando que, durante as últimas décadas, houve anos em que a dívida média dos países era alta (baixa) e que foram seguidas por anos de crescimento alto (baixo). É claro que é um exercício simples e que não possui outros controles. Não foi avaliada a influência de choques positivos ou negativos, como avanços tecnológicos ou choques do petróleo. Mas deixa o resultado de RR mais vulnerável.