Na semana passada, o Valor publicou um ensaio do Krugman, com o título sugestivo de "Como a defesa da austeridade se desfez".
No texto, o economista defende que as economias centrais fizeram muito pouco para enfrentar a crise. Se em 2008 e 2009 principalmente os EUA estimularam a economia via políticas monetária e fiscal, no início de 2010 as economias mais avançadas passaram do estímulo para a austeridade. O ponto dele é que essa reversão não estaria prevista nos manuais e foi basicamente apoiada (i) pelo trabalho de Reinhart e Rogoff e (ii) pelos trabalhos dos Bocconi Boys, encabeçados por Alesina e Ardagna. Além disso, no plano real, ela teria sido apoiada pela situação grega, com déficits e dívida bem altos, que ajudou a gerar um certo repúdio às noções de gasto público.
Krugman compara os gastos públicos das economias avançadas nesta crise com aqueles realizados em outros períodos de recessão, justificando que os estímulos desta vez foram menores e interrompidos brevemente. Isso fez com que o resultado das políticas fossem "desastrosos", principalmente na Grécia, onde até o FMI já reconheceu o erro. A partir daí, atacou a teoria difundida por Alesina e Ardagna, de austeridade expansionista, e o trabalho de R-R, cujos erros a gente já conhece.
No final, a sua tese: a de que a economia da austeridade exerceu poder muito grande sobre a opinião da elite logo de início, tanto por causa de fatores morais, como por causa de interesse próprio. As políticas adotadas não tem sido tão ruins para os ricos. Seria cedo para dizer se o domínio da economia da austeridade vai diminuir, diante do fracasso das teorias. Mas a mensagem mais geral estava dada: poucos benefícios podem resultar do saber.
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Agora, a minha opinião. O Krugman, embora correto, está muito radical. Acho que a maioria dos economistas acredita que, ao menos nos EUA, a atuação dos policymakers foi boa e impediu a ocorrência de uma nova depressão. É claro que sempre poderia ter feito mais, mas a que custo? O gráfico que ele coloca de gastos em épocas de crise não fala nada em relação às receitas, que despencam nesse período. Tanto é que os indicadores d/y subiram bastante. Já coloquei aqui o que acho sobre isso durante a polemica R-R. Não acho que exista um número mágico, muito menos que seja 90%, mas claramente uma dívida alta pode gerar um problema grande, se cair num equilíbrio múltiplo ruim. Para um país que emite a moeda de sua dívida e principalmente para um país como os EUA, que tem credibilidade praticamente ilimitada, esse equilíbrio ruim demora mais a chegar. Em todo caso, não é bom facilitar, nem onerar demais às gerações futuras e nem atar as mãos para uma crise posterior (imagina uma crise grande pegando as economias com d/y = 200; qual o espaço fiscal elas terão?)
Talvez para a Europa ele tenha mais razão. Os bocconi boys entraram pelo cano com essa idéia de consolidação fiscal expansionista. No máximo, o conceito poderia funcionar em tempos normais, em uma conjunção com outros fatores positivos, mas nunca durante uma crise desta proporção. Mas vale lembrar que na Europa tem o problema de uma união monetária para países bem diferentes. Não é um estado federativo. Ou seja, isso também justifica a demora e a tímida atuação. Não dá pra culpar somente os papers da austeridade expansionista. De qualquer jeito, a austeridade foi implementada e tomara que revejam isso. Até o FMI já fez a mea-culpa dele.
Só acho importante destacar que dívida alta é sim um problema grande. Menor do que o alardeado, menor do que uma grande depressão. Isso não permite, contudo, que um país saia emitindo dívida infinita, mesmo que seja em sua própria moeda.
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