sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Mercado de Trabalho

Um interessante seminário do IBRE aconteceu ontem na FGV, com o objetivo de discutir o panorama do mercado de trabalho. Os slides podem ser obtidos no link acima, mas acho que a visão geral pode ser compartilhada aqui. 

De maneira geral, os expositores mostraram a evolução do mercado na última década. Até aí, nada de novidade: (i) queda do desemprego, (ii) queda da informalidade, (iii) aumento do rendimento real e (iv) aumento da escolaridade. O crescimento das vagas acima do crescimento da PEA reduziu a ociosidade no mercado de trabalho e o desemprego atingiu as suas mínimas históricas recentemente (o dado de agosto da PME é de 5,3%). O rendimento real teve um crescimento acima da produtividade. 

Apesar desses resultados positivos na fotografia, na margem, entretanto, o mercado de trabalho pode estar se estabilizando (na melhor das hipóteses) ou entrando em uma tendência de baixa (embora bem leve, já que as apostas mais pessimistas não passam 6% de desemprego). Essa tendência seria explicada pela evolução do desemprego, que em 2013 não é muito diferente de 2012, pelos dados de geração de emprego do CAGED, pelos índices de ocupação e de remuneração aproximadamente estagnados. Mesmo com essa deterioração, entretanto, os efeitos demográficos vão contribuir para a manutenção do baixo desemprego. 

Uma questão interessante, que já vinha sendo discutida há um tempo, é que nos últimos dois anos houve baixo crescimento econômico, mas o desemprego continuou nas mínimas históricas. Em princípio, isso contrariaria a Lei de Okun. Assim, qual seria a explicação para esse paradoxo aparente? Aqui a resposta passa pelo avanço maior do setor de serviços (mais intensivo em mão de obra) e uma desaceleração do crescimento da PEA. Outra hipótese levantada foi em relação à existência de retenção de trabalho (labor hoarding), mas os expositores a rechaçaram, pois essa retenção poderia ocorrer apenas num curto prazo e não em um prazo de mais ou menos 2 anos.

Fora essas questões conjunturais, o Gabriel Ulyssea, do IPEA, trouxe 4 pontos bastante interessantes: 

1. Existe falta de mão de obra qualificada? Não. 
2. Estamos no pleno emprego? Não. 
3. Emprego na indústria. 
4. Salário mínimo e desigualdade de salários. 

Em 2, o mais interessante é verificar que a taxa de participação ainda é baixa, especialmente entre as mulheres. Destaca-se ainda uma queda da taxa de participação desde 2009 entre os jovens de 15 a 24 anos: o problema é que ainda é alto o número desses jovens fora da PEA e também fora da escola. Em todo caso, a conclusão é que ainda há espaço para aumentar a oferta. 

Para os outros pontos, vale a pena dar uma olhada na sua apresentação.

Para o futuro, sempre vale lembrar: a PEA está se desacelerando e começará a se reduzir mais ou menos em 2030. É importante, para o crescimento, portanto, que o país direcione esforços para o aumento da produtividade.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Michael Woodford

Excelente indicação do Drunkeynesian, que me fez lembrar bastante as batalhas com o Interest and Prices: seria o Woodford o economista mais influente do mundo?

A Economia da Índia

Recentemente um amigo recomendou um artigo do Klenow e outros, de 2013, publicado na Review of Economic Dynamics. O trabalho estuda a produtividade na indústria através de dados de firmas grandes, com mais de 200 empregados, para o período de 1980 a 2007. De maneira bem geral, a conclusão é que o crescimento da produtividade (de cerca de 5% ao ano desde 1990) acabou vindo mais do within (dentro das firmas) do que da realocação entre as firmas (menos produtivas em favor das mais produtivas). Outro resultado é que o crescimento da produtividade é pouco associado às reformas pró-mercado realizadas no país. Em todo caso, os resultados demandam cautela: além das limitações metodológicas por si só, foram observadas apenas grandes firmas, formais e de um setor, industrial, que responde por apenas cerca de 20% do PIB indiano.

Embora o artigo seja interessante, a oportunidade maior nessa história foi poder olhar um pouco mais para a Índia. Sabemos que o país é um dos que mais vem sofrendo desde que o FED sinalizou uma mudança futura na política monetária dos EUA. Foi dela a taxa de câmbio que mais se depreciou, refletindo preocupação grande em relação ao país. Colocaram o Raghuram Rajan (ex-FMI) há poucas semanas no comando do BC. Assim, surge uma pergunta: seriam essas preocupações exageradas?

Para obter pistas, temos que conhecer melhor a economia do país. A Índia possui 1,2 bilhões de habitantes, taxa de urbanização na casa dos 30% apenas e uma renda per capita que é cerca de 1/3 da nossa. Só pra ver um pouco de conjuntura, peguei alguns dados da Índia de 2003 a 2012, no FMI. Mesmo sendo uma análise bem superficial, a figura é essa que vem aparecendo na imprensa: déficits gêmeos em situação crítica. Além disso, tem inflação alta na casa dos 10% e a dívida bruta pouco mais alta que a nossa. Crescimento foi robusto (média acima de 7%) nos últimos anos, provavelmente amparado em uma alta taxa de investimento (+- 35%). O alto déficit em conta corrente (média de 4% do PIB nos últimos 3 anos) deve estar por trás desta desvalorização acentuada, aproveitando ainda o fato de que a situação fiscal (déficit nominal acima de 8% nos últimos 5 anos) também não é boa. Suponho que as expectativas de crescimento futuro também estejam diminuindo junto com a China, completando o cenário de dificuldades. 

Além dessa questão conjuntural, acho que é válido um olhar sobre estratégia de desenvolvimento da Índia. Me chamou atenção a pequena participação da indústria no PIB. Para um país populoso e de renda muito baixa, a industrialização não deveria ser mais profunda? É possível gerar empregos e valor a partir de uma alta participação de serviços nessas condições? Obviamente, para tentar responder essas questões, se é que existem respostas, haveria necessidade de aprofundar nas características daquele país, o que não é o objetivo aqui. Em todo caso, ficam as questões para reflexão.

Em tempo: O mesmo Rajan, agora presidente do BC indiano, escreveu há poucos dias um artigo “O argumento a favor da Índia”, antes de assumir o cargo. Disse que questões institucionais deixaram grandes projetos parados. A desaceleração da economia mundial diminuiu às vendas externas e parcela considerável de importações foi de ouro para as famílias mais ricas. Mas o PIB ainda está crescendo (entre 5 e 6% este ano) e a situação fiscal não é tão ruim: a dívida vem se reduzindo e é tem uma estrutura favorável: moeda local e maturidade média de 9 anos. As reservas representam 15% do PIB.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Economistas na CAE do Senado

No último dia 10, a reunião semanal da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado recebeu três economistas do mercado para discutir conjuntura econômica. Os convidados foram o Nilson Teixeira, do Credit Suisse, Octávio de Barros, do Bradesco e Ilan Goldfajn, do Itaú. Os três acabaram convergindo bastante em suas análises, que tiveram como tema o desempenho e perspectivas da economia brasileira neste novo cenário do tampering americano.

O primeiro a falar foi o Nilson. Fez uma exposição padrão de conjuntura, passando por câmbio, fiscal, investimentos e outras. Ressaltou que o crescimento dos investimentos foi maior que o do consumo nos últimos 10 anos. Colocou a importância da independência do BC.

Em seguida, o Octávio fugiu um pouco de conjuntura pra falar do problema de confiança estrutural na economia brasileira. Chamou atenção para a necessidade de melhoria do ambiente empresarial e da necessidade de envolver o setor privado, não como coadjuvante, mas como protagonista do ciclo de investimentos em infraestrutura. Falou ainda das restrições demográficas que o país vai enfrentar e da necessidade de ganhar produtividade. Também defendeu a Independência do BC, além de propor limitar o crescimento dos gastos públicos ao crescimento do PIB e reduzir a dependência do Mercosul. 

O Ilan, que falou por último, enfatizou a questão cambial: discutiu câmbio de equilíbrio, intervenção no mercado de câmbio e o repasse para a inflação. Falou também de competitividade e investimentos em infraestrutura. Por último, mencionou a questão da educação, que é a chave para o crescimento de longo prazo.

A visão dos três economistas foi mais ou menos convergente: no plano externo, os Estados Unidos se recuperando e começando lentamente a retirar os estímulos; a Europa em recuperação mais lenta, mas positiva, e a China se estabilizando em um crescimento mais baixo nos próximos anos, mas ainda sim robusto. No Brasil, ressaltou-se a necessidade de ganhar competitividade, seja por meio dos investimentos em infraestrutura, seja por meio da melhoria no ambiente de negócios. 

Nas reuniões da CAE, após a apresentação do(s) convidado(s), é aberto o debate e a partir deste é interessante observar quais são as questões que mais preocupam os senadores, bem como o nível da discussão econômica no SF. Nesta seção, os principais questionamentos foram ligados à existência ou não de contabilidade criativa, à atuação do BNDES, e à dinâmica inflacionária. O Suplicy colocou na mesa a queda de desigualdade e a necessidade de aprofundar este processo. Blairo Maggi quis saber mais sobre a contabilidade criativa. Agripino Maia questionou a magnitude dos gastos com serviço da dívida e o Dornelles questionou se a intervenção diária do Banco Central no mercado de câmbio não quebraria o princípio do câmbio flutuante. 

Por um lado, a sessão foi muito boa, dada a qualidade dos convidados. O conteúdo foi objetivo e abrangente e os senadores demonstraram interesse e preocupação com temas relevantes. Por outro lado, no momento das perguntas, ficou nítida a falta de intimidade da maioria deles com a economia brasileira.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Programas Sociais - CCT

Recentemente, participei de uma pesquisa que procurou mapear os programas CCT (Conditional Cash Transfers) em 6 países da América Latina: Brasil, México, Colômbia, Peru, Jamaica e Honduras. Os programas de transferência condicional de renda são aqueles que pagam um beneficio monetário às famílias em troca de que elas invistam em capital humano, notadamente saúde e educação. Assim, ele alivia a pobreza de curto prazo ao mesmo tempo em que cria condições para que aquela família saia da pobreza no médio/longo prazo. A diminuição da pobreza e as externalidades geradas (às vezes para a família o mais vantajoso é ter a criança trabalhando) justificam a implementação do programa. As condicionalidades, além de seus benefícios próprios, são também outra forma de legitimá-lo à sociedade, porque estabelecem uma obrigação aos beneficiários (ou seja, o recurso não vem "de graça").

Este modelo de política social teve suas origens em municípios brasileiros e também no México nos anos 90 e acabou se difundindo por quase toda a América Latina no fim dos anos 90 e inicio dos anos 2000. Em muitos países, a implantação do programa ajudou a estruturar a política social, unificando e racionalizando programas antigos. Hoje em dia, os maiores programas são o Bolsa Família do Brasil (14 milhões de famílias beneficiadas) e o Oportunidades do México (6 milhões de famílias). Um ponto importante é que apesar dos programas CCT terem a mesma lógica, são várias as diferenças de país para país. Características gerais como população-alvo, proporção da população atendida (cobertura), valor real da transferência, forma de pagamento, condicionalidades, resultados e avaliação variam bastante entre eles.

Como pode ser percebido, a implementação de um programa deste tipo é bem trabalhosa. Durante o desenho de um CCT, são muitas as questões que devem ser levadas em conta pelos policymakers. As mais fundamentais são as listadas abaixo:

1. Funding (mais crítico em países mais pobres, porque além das restrições financeiras, o percentual de famílias elegíveis é maior)
2. Definição da população elegível
3. Definição de método de targeting e aprimorá-lo constantemente, evitando erros de inclusão ou exclusão
4. Definição de desenho institucional e relação entre os órgãos responsáveis e diferentes esferas governamentais
5. Definição de forma de pagamento, periodicidade, a quem (geralmente são para as mães) e métodos de evitar a manipulação política do programa
6. Monitoramento das condicionalidades e definir qual a abordagem adotada em caso de não cumprimento (punição ou ajuda)
7. Garantir a oferta de serviços na região (não adianta exigir frequência escolar se não há escola na localidade)
8. Implementação de ouvidoria, atendimento (ajuda) e publicidade
9. Definir formas de auditoria
10. Definir formas de monitoramento e avaliação

Cada um desses tópicos merece longas considerações, mas acredito que não há espaço suficiente. Um destaque importante é que a percepção positiva dos programas é ligada a não existência de erros de targeting, ao conhecimento do funcionamento do programa e ao reconhecimento da importância e dos efeitos positivos. Erros de inclusão, por exemplo, tem um impacto de imagem pior do que erros de exclusão.

Os economistas tem muito a dizer sobre várias etapas destacadas acima, com destaque para os métodos de targeting e para os métodos de avaliação. Os métodos de targeting são formulados e avaliados por meio de pesquisas empíricas. Um métodos mais utilizados é o Proxy Means Test, que nada mais é do que um modelo econométrico que procura captar a elegibilidade das famílias por meio de uma séries de variáveis (desde educação do pai até o número de televisores na casa).

Em relação à avaliação, acredito que seja o prato cheio para os economistas. Organismos multilaterais, universidades e think-thanks buscam avaliar impactos relacionados aos programas CCT. Um ponto de destaque é que algumas vezes a avaliação futura já é incorporada no desenho do programa, como no caso clássico do mexicano Oportunidades. Desde o seu início em 1997 (quando ainda tinha o nome de Progresa), o programa possibilita a realização de diversas avaliações experimentais, que acabam direcionando futuramente as revisões do programa.

E sobre o resultado das avaliações? De maneira geral, pode-se afirmar que elas tem mostrado resultados importantes em relação à diminuição da pobreza e em alguns casos em indicadores relacionados às condicionalidades, como saúde e frequência escolar. Quando são analisados outcomes mais amplos, como qualidade da educação recebida, os resultados já se tornam bem menos positivos. Isso mostra, portanto, que existem muitos desafios pela frente, sendo que os principais tem a ver com a qualidade dos serviços ofertados, evolução das condicionalidades para novos cenários e outros relacionados ao monitoramento e avaliação. É nesse sentido que os programas devem procurar avançar, não só por si só, mas com a ajuda do ambiente externo a eles.