Recentemente um amigo recomendou um artigo do Klenow e outros, de 2013, publicado na Review of Economic Dynamics. O trabalho estuda a produtividade na indústria através de dados de firmas grandes, com mais de 200 empregados, para o período de 1980 a 2007. De maneira bem geral, a conclusão é que o crescimento da produtividade (de cerca de 5% ao ano desde 1990) acabou vindo mais do within (dentro das firmas) do que da realocação entre as firmas (menos produtivas em favor das mais produtivas). Outro resultado é que o crescimento da produtividade é pouco associado às reformas pró-mercado realizadas no país. Em todo caso, os resultados demandam cautela: além das limitações metodológicas por si só, foram observadas apenas grandes firmas, formais e de um setor, industrial, que responde por apenas cerca de 20% do PIB indiano.
Embora o artigo seja interessante, a oportunidade maior nessa história foi poder olhar um pouco mais para a Índia. Sabemos que o país é um dos que mais vem sofrendo desde que o FED sinalizou uma mudança futura na política monetária dos EUA. Foi dela a taxa de câmbio que mais se depreciou, refletindo preocupação grande em relação ao país. Colocaram o Raghuram Rajan (ex-FMI) há poucas semanas no comando do BC. Assim, surge uma pergunta: seriam essas preocupações exageradas?
Para obter pistas, temos que conhecer melhor a economia do país. A Índia possui 1,2 bilhões de habitantes, taxa de urbanização na casa dos 30% apenas e uma renda per capita que é cerca de 1/3 da nossa. Só pra ver um pouco de conjuntura, peguei alguns dados da Índia de 2003 a 2012, no FMI. Mesmo sendo uma análise bem superficial, a figura é essa que vem aparecendo na imprensa: déficits gêmeos em situação crítica. Além disso, tem inflação alta na casa dos 10% e a dívida bruta pouco mais alta que a nossa. Crescimento foi robusto (média acima de 7%) nos últimos anos, provavelmente amparado em uma alta taxa de investimento (+- 35%). O alto déficit em conta corrente (média de 4% do PIB nos últimos 3 anos) deve estar por trás desta desvalorização acentuada, aproveitando ainda o fato de que a situação fiscal (déficit nominal acima de 8% nos últimos 5 anos) também não é boa. Suponho que as expectativas de crescimento futuro também estejam diminuindo junto com a China, completando o cenário de dificuldades.
Além dessa questão conjuntural, acho que é válido um olhar sobre estratégia de desenvolvimento da Índia. Me chamou atenção a pequena participação da indústria no PIB. Para um país populoso e de renda muito baixa, a industrialização não deveria ser mais profunda? É possível gerar empregos e valor a partir de uma alta participação de serviços nessas condições? Obviamente, para tentar responder essas questões, se é que existem respostas, haveria necessidade de aprofundar nas características daquele país, o que não é o objetivo aqui. Em todo caso, ficam as questões para reflexão.
Em tempo: O mesmo Rajan, agora presidente do BC indiano, escreveu há poucos dias um artigo “O argumento a favor da Índia”, antes de assumir o cargo. Disse que questões institucionais deixaram grandes projetos parados. A desaceleração da economia mundial diminuiu às vendas externas e parcela considerável de importações foi de ouro para as famílias mais ricas. Mas o PIB ainda está crescendo (entre 5 e 6% este ano) e a situação fiscal não é tão ruim: a dívida vem se reduzindo e é tem uma estrutura favorável: moeda local e maturidade média de 9 anos. As reservas representam 15% do PIB.
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