Desde a crise econômica, macroeconomistas de todo o mundo vem debatendo intensamente sobre qual seriam as maneiras mais eficientes de superá-la e também qual seriam as formas de evitar uma nova crise no futuro.
Tendo a crise dos EUA originado no mercado financeiro, os economistas passaram a procurar formas de colocar o lado financeiro em seus modelos. Passaram a debater sobre medidas macroprudenciais, regulação financeira, sistema monetário internacional, fluxo de capitais e o futuro das políticas macroeconômicas e dos bancos centrais.
Em 2011, o FMI organizou a conferência Rethinking Macroeconomics, tendo os economistas O. Blanchard, J. Stiglitz, M. Spence e D. Romer como anfitriões. Agora em abril, essa discussão foi retomada no âmbito da conferência RethinkingMacroeconomics II. Nesta segunda edição, foram observadas algumas evoluções, mas a impressão é que os debates estão ainda longe de um final, sendo que os economistas ainda conhecem pouco sobre os efeitos das alternativas de políticas.
A idéia básica é a seguinte:
1. a crise foi gerada num ambiente de crescimento econômico e inflação controlada (foi cunhado até um termo para isso, a grande moderação). Havia mais ou menos um consenso da política macro: política monetária baseada no inflation targeting (explícita ou implícita) e menor papel para a política fiscal. Esse arcabouço parecia estar suportando um crescimento com volatilidade reduzida.
2. Nesse ambiente tranquilo formou-se um monstro no setor financeiro. O arcabouço anterior portanto não funcionou. A crise teve grandes proporções e poderia ter gerado efeitos similares ao da Grande Depressão. O debate, portanto, é: quando a crise tiver superada, aquele arcabouço ainda será ideal? O inflation targeting ainda será o melhor sistema de política monetária? Mas ele não é capaz de estourar bolhas nos ativos, é? E quem vai cuidar da medidas macroprudenciais? E se essa atuação macroprudencial interferir na política monetária?
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Embora tenha muitos tópicos, gostaria de ressaltar dois pontos das discussões, relativas às políticas fiscal e monetária. Referente à primeira, a questão maior é saber até que ponto uma dívida pública é sustentável, bem como analisar os múltiplos equilíbrios que elas podem produzir (bons ou ruins). Essa questão é bastante importante para a recuperação dos países, especialmente os europeus, que estão optando equivocadamente pela austeridade. Até que ponto os países devem adotar as receitas keynesianas de estimular a economia via gastos? E quando essas medidas devem ser revertidas?
O segundo ponto, mais instigante ainda, é sobre a política monetária. Como falamos, antes da crise, a maioria dos países adotou o regime de metas de inflação (ou uma variante dele, como nos EUA). O problema é que ele não foi capaz de impedir a gestação da crise, como também não vem sendo o responsável por sua superação. A maioria dos BCs estão adotando medidas não convencionais de política monetária (quantitative e credit easing, forward guidance, macroprudenciais, etc.). Assim, ao menos algum tipo de reforma será visto no regime de IT no futuro (e no presente!). As perguntas que se colocaram, portanto, foram nessa linha. Estaria o regime de inflation targeting apto a lidar com crises e bolhas (prevenção e remediação)? Bancos Centrais deveriam olhar para a atividade? Deveriam olhar para a estabilidade financeira? Para o câmbio? E qual o toolkit ideal para situação de Zero Bound (armadilha da liquidez)?
Ainda sobre política monetária, mesmo que existam algumas novas propostas na mesa, como as metas para o PIB nominal, não acho que elas teriam sucesso. Provavelmente, o que vamos ver, é uma reforma, no inflation targeting. Essa é inclusive a conclusão geral desse interessante e-book, Is Inflation Targeting Dead?, da Vox.
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