terça-feira, 28 de maio de 2013

A economia japonesa: entendendo o Abenomics e divagando sobre o pós-crescimento

A economia do Japão é uma grande case de estudo, pois, após um crescimento bastante robusto no pós-guerra, ela estacionou no início dos anos 90, para nunca mais crescer. Assim, já são mais de 20 anos de um crescimento pífio da terceira (perdeu a segunda posição recentemente para a China) economia do mundo.

O Japão apresentou um forte crescimento até 1990 com grande ajuda dos Estados Unidos. Soube aproveitar o maior comércio mundial e focalizou em produtos na fronteira tecnológica, utilizando-se de protecionismo à sua indústria quando necessário, além de ter investido fortemente em capital humano. Além disso, uma alta taxa de poupança de seus agentes econômicos possibilitou grandes investimentos. O milagre japonês (53 – 73) é descrito como capital intensivo, bastante P&D e intervenção estatal. Os choques do petróleo diminuíram um pouco o crescimento nos anos 70, mas este ainda continuou firme.

No fim dos anos 80, no contexto do Acordo de Plaza (1985), onde os EUA forçaram a valorização do Iene, quando o Japão exibia expressivos superávits comerciais, a economia japonesa estava superaquecida. Promovia-se uma liberalização financeira (antes o crédito da economia era fortemente bancário) e surgiam bolhas especulativas, especialmente nos mercados acionário e imobiliário.  Aumentava-se o consumo, inclusive em bens de luxo.

No início dos anos 90, uma mudança na política monetária japonesa, juntamente com a ocorrência de alguns escândalos financeiros, foi suficiente para estourar as bolhas. O sistema bancário/financeiro entrou em colapso e a queda abrupta no preço dos ativos (inclusive colaterais) levou a economia para o buraco. Alguns autores ainda interpretam a crise como consequência de uma tendência estrutural à estagnação. Essa tendência poderia ser derivada da exaustão de oportunidades de investimento, causadas, por exemplo, por maior concorrência de seus produtos (outros países cresceram bastante), pelo aumento do custo da mão-de-obra, etc.

O fato, contudo, é que, nos anos seguintes, o governo tentou implementar políticas pró-crescimento, como aumento dos gastos fiscais e tentativa de recuperar o sistema bancário, mas acabou não tendo sucesso. O envelhecimento da população, as crises políticas, o terremoto em Kobe em 1995 e a crise asiática foram fatores que contribuíram para a não retomada da economia japonesa. A partir daí, outro fator negativo apareceu, a deflação. Assim, muitos autores, como Paul Krugman, passaram a ver o Japão como um caso típico da armadilha de liquidez. 

Os anos de baixo, ou quase nulo, crescimento se seguiram e perduram até os dias de hoje. Em dezembro de 2012 foi eleito para o cargo de primeiro ministro o Abe, que prometeu a volta de um forte crescimento. Mesmo com desafios, como a relação dívida/PIB em 240%, Abe está levando a cabo uma política monetária bastante expansionista, com o objetivo de causar uma pequena inflação, puxar o consumo e o investimento. A meta dessa política, conhecida como Abenomics, é dobrar a base monetária do país em dois anos.

É importante ressaltar, por outro lado, que alguns analistas enxergam o Japão como um caso de pós-crescimento. O país não teria mais como crescer e deveria deixar esta preocupação de lado, dedicando-se a melhorar a qualidade de vida da população. Vale lembrar que, mesmo com o pífio crescimento dos últimos 20 anos, seus índices sociais básicos não pioraram e sua renda per capita é uma das maiores do mundo.

Dívida Pública

Excelente artigo do valor de hoje, sobre a composição da dívida pública no Brasil.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Uma agenda para o blog

Sinto que, neste momento, é possível que meu assíduos leitores estejam um pouco confusos com o rumo do Blog. Seriam posts aleatórios? Sobre o que quer nos escrever o Economista T? Assim, para continuar com um público cativo e torná-lo cada vez maior, é importante colocar quais são os assuntos que terão maior destaque nos próximos posts.

No momento, os meus esforços se voltaram para a macroeconomia teórica, para os debates sobre as necessidades ou não de mudanças na gestão macroeconômica, para a superação de crises e para a conjuntura mundial. Não estou muito interessado mais na economia brasileira, acho que o Guido Mantega anda me deixando um pouco mal-humorado.

O que eu tenho na cabeça é que a inspiração das políticas adotadas nos EUA a partir de 2008 veio, sem dúvida, a partir da crise de 29. O medo de uma nova Grande Depressão foi determinante. A elaboração do pacote teve grande participação de economistas novo-keynesianos, que se inspiram não só no papel da política fiscal, mas também no monetarismo de Friedman e Schwartz. As medidas acabaram surtindo efeito, mesmo que o crescimento não esteja de vento em popa. Recentemente, economistas como Akerlof e Blinder elogiaram os estímulos fornecidos pelo governo americano, afirmando que estariam muito pior sem as medidas tomadas.

No resto do mundo, temos um quadro interessante. A Europa afundando: insistindo na austeridade fiscal, embora a atuação do BCE tenha lá o seu mérito de não ter deixado a vaca ir para o brejo. E o Japão, estagnado há 20 anos, se empolgando com o Abenomics, que promete dobrar a base monetária dos caras e finalmente acabar com a deflação.

Como já foi dito em outro post, o mundo macroeconômico sacode. Tantas medidas não convencionais de política monetária, tantos países de uma só vez habitando o perigoso zero bound. No lado fiscal, dívidas públicas em patamares recordes. A regulação bancária caminhando em zigue-zague. Barry Eichengreen discutindo sobre a currency war.

No meio disso tudo, vários livros bons sendo lançados. After the music stopped ou Bankers' New Clothes.

Um prato cheio para os macroeconomistas, certo? Cada linha desse post maluco daria uma monografia. Como não sou ambicioso, farei com que virem posts interessantes ao longo dos próximos tempos.

terça-feira, 21 de maio de 2013

A macro antes da crise

Devido ao grande sucesso do post "O futuro da macro", meu assíduos leitores pediram que fosse explorado o passado da macro. A proposta não é entrar muito na história da macro; será apenas pincelado o paradigma que vigorava até mais ou menos 2008. Podemos, futuramente, nos adentrar nos grandes debates da história da macroeconomia, durante o pós-guerra, que, diga-se de passagem, são bastante interessantes.

Para começar, portanto, partimos do fato de que uma das grandes perguntas colocadas pela macroeconomia é a respeito das flutuações de produto. Como estabilizar o produto e o emprego? Como minimizar a volatilidade inerente a essas variáveis? Essas questões estão no âmbito da macroeconomia de curto prazo. Se pensarmos no longo prazo, entraremos no campo das teorias do crescimento, que apesar de relacionada, possui suas próprias especificidades.

Pensando no curto prazo (que pode não ser tão curto assim), vemos que os ciclos são estudados há bastante tempo (desde que Jevons associou erroneamente os ciclos às manchas solares). São diversas escolas de pensamento que buscam respostas em relação às frequências, duração, determinantes e maneiras de evitar os ciclos. Lima (2011) estabelece duas principais correntes: a que estudava os ciclos de maneira estatística e a que estudava de maneira teórica. Nesta última, haveria outras duas correntes: uma que acreditava nos ciclos como intrínsecos ao capitalismo (modelos acelerador/multiplicador) e outra que via cada ciclo como único, causado por choques exógenos (modelos de propagação). Para esse grupo, dos teóricos, várias causas são apontadas como determinante, dependendo da escola. Fatores reais (tecnologia, preferências, investimento, etc) e fatores monetários diversos são explorados. Fatores financeiros, obviamente, também (como em Minsky). A minha conclusão é que provavelmente vários fatores podem contribuir conjuntamente ou isoladamente para a flutuação econômica e existência das crises.

Blanchard (2008) acreditava em seu trabalho de 2008 (The State of Macro) que a macroeconomia havia atingido uma relativa convergência, tanto de ideias quanto de método. Após anos de intensa atividade e acalorados debates, havia se chegado a um relativo consenso. No método, o destaque seria para os modelos DSGE, embora estes não estivessem livres nem de críticas (a algumas de suas premissas, principalmente) nem de uma agenda de pontos a serem aperfeiçoados/introduzidos. Em relação às ideias, haveria um consenso de que as fricções seriam importantes para explicar o funcionamento da economia, com destaque para a rigidez de preços e salários, custos de ajustamento, dentre outros. O modelo básico seria então composto pelas curvas IS (demanda agregada), de Phillips e a regra de Taylor, todas obviamente em sua versão das expectativas racionais. Um ponto importante, ressaltado por Blanchard (2008) é que esse modelo já teria substituído o modelo IS-LM como modelo básico para flutuações nos cursos de pós-graduação, embora ainda não nos cursos de graduação. Essa mudança apresentava benefícios e custos, mas aparentemente os primeiros superariam os últimos. E, por fim, como prescrição de política, esse modelo traria lições importantes, sendo uma delas a defesa do inflation targeting, este tendo um dos pilares no que se chamou da “divina coincidência”.

O que Blanchard não esperava era a ocorrência da crise, ou pelo menos o seu grau de profundidade. A verdade é que a crise originada no mercado imobiliário dos EUA teve consequências drásticas, não só para a economia mundial, como também para os economistas e seus modelos. E o que vem emergindo desse cenário, depois de 5 anos de crise, ao menos em termos de política econômica, é um questionamento grande acerca do consenso anterior, seja em relação ao sistema de política monetária ou ao papel da regulação do setor financeiro ou das políticas fiscais. 

domingo, 19 de maio de 2013

Economistas e o Mercado Financeiro

Você, economista, quantas vezes já foi perguntado sobre quais ações comprar?

Se não soube indicar nada, fique tranquilo, pois Greg Mankiw também não. Segundo ele, economistas, de fato, não são bons stock pickers.

Contudo, vários estudos realizados por economistas chegam a conclusões interessantes:

1. Mercados processam as informações com grande rapidez
2. Mudanças de preços são muitas vezes inexplicáveis
3. Comprar ações é uma boa aposta
4. Diversificação é essencial
5. Investidores inteligentes pensam no mercado global

É isso...

sábado, 18 de maio de 2013

Seminário de metas

Pegando carona no post anterior, vale a pena destacar que o Banco Central realizou esta quinta e sexta, no Rio, o XV Seminário de Metas para a inflação. O objetivo, como sempre, é discutir, os rumos da condução de política monetária, com base em diversos trabalhos que são apresentados.

O programa do seminário deste ano foi, nas palavras de Tombini, preparado para explorar ainda mais as lições da crise, em especial, no que diz respeito aos modelos econômicos e financeiros que os bancos centrais utilizam para a previsão e análise de políticas.

O que está repercutindo, no entanto, é a apresentação de abertura feita pelo economista Laurence Ball. Em pleno terreno de banqueiros centrais, ele defendeu uma meta de inflação de 4% para os EUA, questionou a independência dos BCs e outras coisas parecidas. Como disse o CT, do Consciência de Três Liberais, será que o BC foi pego de surpresa também ou a ideia foi dar um recado mesmo?


O Futuro da Macro

Desde a crise econômica, macroeconomistas de todo o mundo vem debatendo intensamente sobre qual seriam as maneiras mais eficientes de superá-la e também qual seriam as formas de evitar uma nova crise no futuro. 

Tendo a crise dos EUA originado no mercado financeiro, os economistas passaram a procurar formas de colocar o lado financeiro em seus modelos. Passaram a debater sobre medidas macroprudenciais, regulação financeira, sistema monetário internacional, fluxo de capitais e o futuro das políticas macroeconômicas e dos bancos centrais.

Em 2011, o FMI organizou a conferência Rethinking Macroeconomics, tendo os economistas O. Blanchard, J. Stiglitz, M. Spence e D. Romer como anfitriões. Agora em abril, essa discussão foi retomada no âmbito da conferência RethinkingMacroeconomics II. Nesta segunda edição, foram observadas algumas evoluções, mas a impressão é que os debates estão ainda longe de um final, sendo que os economistas ainda conhecem pouco sobre os efeitos das alternativas de políticas. 

A idéia básica é a seguinte:

1. a crise foi gerada num ambiente de crescimento econômico e inflação controlada (foi cunhado até um termo para isso, a grande moderação). Havia mais ou menos um consenso da política macro: política monetária baseada no inflation targeting (explícita ou implícita) e menor papel para a política fiscal. Esse arcabouço parecia estar suportando um crescimento com volatilidade reduzida.

2. Nesse ambiente tranquilo formou-se um monstro no setor financeiro. O arcabouço anterior portanto não funcionou. A crise teve grandes proporções e poderia ter gerado efeitos similares ao da Grande Depressão. O debate, portanto, é: quando a crise tiver superada, aquele arcabouço ainda será ideal? O inflation targeting ainda será o melhor sistema de política monetária? Mas ele não é capaz de estourar bolhas nos ativos, é? E quem vai cuidar da medidas macroprudenciais? E se essa atuação macroprudencial interferir na política monetária?

***
Embora tenha muitos tópicos, gostaria de ressaltar dois pontos das discussões, relativas às políticas fiscal e monetária. Referente à primeira, a questão maior é saber até que ponto uma dívida pública é sustentável, bem como analisar os múltiplos equilíbrios que elas podem produzir (bons ou ruins). Essa questão é bastante importante para a recuperação dos países, especialmente os europeus, que estão optando equivocadamente pela austeridade. Até que ponto os países devem adotar as receitas keynesianas de estimular a economia via gastos? E quando essas medidas devem ser revertidas?

O segundo ponto, mais instigante ainda, é sobre a política monetária. Como falamos, antes da crise, a maioria dos países adotou o regime de metas de inflação (ou uma variante dele, como nos EUA). O problema é que ele não foi capaz de impedir a gestação da crise, como também não vem sendo o responsável por sua superação. A maioria dos BCs estão adotando medidas não convencionais de política monetária (quantitative e credit easing, forward guidance, macroprudenciais, etc.). Assim, ao menos algum tipo de reforma será visto no regime de IT no futuro (e no presente!). As perguntas que se colocaram, portanto, foram nessa linha. Estaria o regime de inflation targeting apto a lidar com crises e bolhas (prevenção e remediação)? Bancos Centrais deveriam olhar para a atividade? Deveriam olhar para a estabilidade financeira? Para o câmbio? E qual o toolkit ideal para situação de Zero Bound (armadilha da liquidez)?

Ainda sobre política monetária, mesmo que existam algumas novas propostas na mesa, como as metas para o PIB nominal, não acho que elas teriam sucesso. Provavelmente, o que vamos ver, é uma reforma, no inflation targeting. Essa é inclusive a conclusão geral desse interessante e-book, Is Inflation Targeting Dead?, da Vox.

domingo, 12 de maio de 2013

Prescott na EPGE

Na semana passada, pude assistir o seminário na EPGE que contou com a presença de dois laureados, o Prescott e o Sims. O Prescott é um dos expoentes da escola RBC (Real Business Cycles), juntamente com Kyland, Plosser e outros. Antes de falar sobre sua apresentação em si, vale a pena situar essa escola na história da macroeconomia.

No fim dos anos 70, o então mainstream da macro sofreu um ataque forte, originado pela crítica de Lucas. Até então, utilizava-se, para formular e testar teorias, modelos com centenas de equações, no caso dos keynesianos, e alguns modelos com poucas equações, no caso dos monetaristas. Esses grupos travavam divergências principalmente em relação à curva de Phillips, isto é, em um suposto tradeoff entre inflação e desemprego. Segundo Lucas, entretanto, os modelos até então utilizados tratavam os agentes econômicos como passivos a respeito de qualquer alteração de política. Desta maneira, desconsideravam o fato de que os agentes também reagiriam a alterações de políticas.

A crítica de Lucas originou, portanto, a revolução das expectativas racionais na macroeconomia. A partir desse momento, o novo mainstream se formou nos chamados novo-clássicos, dentre eles o próprio Lucas, Sargent e Barro. Procurou-se construir modelos que levassem em conta as respostas dos agentes às políticas econômicas, sendo que os modelos microfundamentados ganharam bastante espaço neste novo paradigma. Nesse contexto, surgiram os modelos de ciclos reais de negócios (RBC), que, de maneira resumida, acreditam que os ciclos são explicados por choques de produtividade, não cabendo nenhum papel às políticas fiscal e monetária. Uma das premissas mais controversas dessa escola é a flexibilidade de preços e salários, que foi atacada posteriormente pelos economistas novo-keynesianos.

Mas, então, o que mesmo disse o Prescott, na EPGE? Prescott criticou as políticas industriais, sugeriu o corte de impostos e gastos e o aumento de competitividade entre os Estados. Por fim, disse que o Brasil deveria ter mais empresas multinacionais, como a Vale. Que por sinal, era a patrocinadora do evento.